Bruno Imboisi - Pesquisador e indígenas em coleta de solos.

Bruno Imboisi – Pesquisador e indígenas em coleta de solos.

Por Priscila Viudes, Diva Gonçalves e Dulcivânia Freitas/Embrapa

A troca de conhecimentos entre indígenas e técnicos da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e de instituições parceiras tem contribuído para fortalecer a agricultura desses povos nos estados do Amapá e Acre. O objetivo principal é garantir segurança alimentar e melhorar o aproveitamento de recursos naturais nas aldeias, com ações simples que respeitem os hábitos tradicionais e possibilitem o diálogo entre a ciência e o conhecimento tradicional.

O município de Oiapoque, localizado no extremo norte do estado do Amapá, abriga as terras indígenas Uaçá, Galibi e Juminá. Nesse território de quase 520 hectares vivem cerca de sete mil indígenas, em 40 aldeias, que retiram da natureza os recursos para sobrevivência. Junto com as comunidades indígenas e instituições parceiras, a Embrapa Amapá desenvolve ações de intercâmbio de conhecimentos em manejo sustentável de açaí e outra frutíferas, por meio do Projeto Frutiindo (ABC da Agricultura Familiar – Açaí, Banana e Citros), em fase de conclusão. Os produtores indígenas são protagonistas do trabalho que tem como objetivo melhorar e ampliar a produção agrícola e a oferta de alimentos nas aldeias.

Para resguardar a singularidade das etnias e padrões socioculturais dos indígenas, cada atividade foi planejada de acordo com sugestões dos indígenas e com prioridades previstas no “Plano de Vida dos Povos Indígenas do Oiapoque” e no Programa de Gestão Territorial e Ambiental das Terras Indígenas do Oiapoque (PGTA). Entre os parceiros do projeto estão o Conselho dos Caciques dos Povos Indígenas do Oiapoque (CCPIO), o Instituto Estadual de Florestas (IEF), Fundação Nacional do Índio (Funai), Instituto de Desenvolvimento Rural do Estado do Amapá (Rurap), a ONG TNC (The Nature Conservancy) e o Instituto de Pesquisa e Formação Indígena (Iepé).

O indígena Domingos Santa Rosa, técnico da Funai, ressalta a valorização de questões culturais e ambientais na realização das atividades. “Esses aspectos são importantes para a sustentabilidade dos povos indígenas e também para o futuro das comunidades, principalmente com relação à gestão das terras indígenas”, diz.

“No geral, as frutíferas apresentavam baixa produtividade nas aldeias, principalmente pela falta de manejo e alta ocorrência de pragas”, ressalta o analista Jackson de Araújo dos Santos, líder do projeto Frutiindo. Para Domingos Santa Rosa, um diferencial do “Frutiindo” é a orientação técnica para conservação da biodiversidade. “Visamos ao aumento da produção de frutos do açaí, mas mantendo a diversidade de espécies florestais dentro dos açaizais”, pontua.

Entre os resultados destacam-se a formação de 434 agentes multiplicadores indígenas, sendo 192 em manejo de açaizais nativos, a instalação e acompanhamento de parcelas em sete aldeias (Açaizal, Manga, Curipi, Ahumã, Tukay, Galibi e Ariramba) e instalação de viveiros de produção de mudas de espécies florestais em três aldeias.

“Também conseguimos realizar capacitação técnica em manejo da cultura da banana para 180 indígenas e instalar Unidades Demonstrativas em 13 aldeias, além da formação técnica de 62 agentes multiplicadores indígenas em produção de mudas enxertadas de citros, com implantação de quatro viveiros comunitários em cinco aldeias”, detalha Jackson Santos.

Outra ação importante para a disseminação de conhecimentos foi a instalação de uma Minibiblioteca da Embrapa no Museu Kuahí, espaço de divulgação e preservação da cultura material e imaterial dos Povos Indígenas de Oiapoque.

Tecnologia certificada – A tecnologia “Manejo de mínimo impacto de açaizais de grotas em terras indígenas no Amapá”, implementada junto com produtores indígenas de comunidades de Oiapoque, no âmbito do Projeto Frutiindo, recebeu da Fundação Banco do Brasil (FBB) certificação e reconhecimento de Tecnologia Social.  As grotas são ambientes de solo úmido nas florestas de terra firme, onde pode haver ocorrência de açaizeiros. Uma das características deste ambiente é a fragilidade mais acentuada em relação as várzeas do estuário amazônico, por isso a intensidade das intervenções do manejo é menor na grota. “O princípio do manejo de açaizais de grota é o aumento da produção de frutos, com a manutenção das características das florestas e a preservação da função ambiental da área”, ressalta o pesquisador Silas Mochiutti, da Embrapa Amapá.

A adoção de técnicas de manejo de mínimo impacto de açaizais de grotas em terras indígenas no Amapá resulta em menor esforço e mais segurança na coleta dos cachos, aumentando em até 100% a produtividade de frutos de açaí, com ampliação do período de coleta de três para até sete meses. “A atividade ajuda a proporcionar segurança alimentar nas aldeias, uma vez que o açaí é um alimento de alto valor nutricional e muito apreciado pelos indígenas de Oiapoque”, enfatiza o analista Jackson Santos.

Coleta insetos na região kaxinawá. - Foto: Priscila Viudes

Coleta insetos na região kaxinawá. – Foto: Priscila Viudes

No Acre, pesquisa e compartilhamento com os Kaxinawá

O trabalho conjunto com povos indígenas contempla também populações que habitam o interior do estado do Acre. Há cinco anos, pesquisadores e técnicos da Embrapa e de outras instituições realizam o compartilhamento de informações e conhecimentos na TI Kaxinawá de Nova Olinda, localizada na região do Alto Rio Envira, município de Feijó (AC). O trabalho participativo tem ajudado a fortalecer a medicina e a agricultura Kaxinawá, além de gerar alternativas de uso sustentável dos solos e de recursos ofertados pela floresta.

Entre os Kaxinawá de Nova Olinda predomina o cultivo da banana, mandioca e amendoim. Atualmente vivem cerca de 490 pessoas nessa TI, mas o aumento da população trouxe a necessidade de buscar alternativas para ampliar a produção. A parceria começou há cinco anos, com o projeto “Etnoconhecimento e Agrobiodiversidade entre os Kaxinawá de Nova Olinda”, atualmente em sua segunda fase.

De acordo com o pesquisador Moacir Haverroth, líder do projeto, esse esforço conjunto se traduz em benefícios para as comunidades, mas também para a Ciência. “Ao mesmo tempo em que permitiram melhorar os sistemas de produção e a qualidade alimentar das famílias indígenas, as ações inspiram novas possibilidades de atuação da pesquisa, resultando na geração de novos conhecimentos científicos”, afirma.

Benefícios – Uma das alternativas para diversificar os cultivos e fortalecer a produção agrícola nas aldeias foi a implantação de Sistemas Agroflorestais (SAFs). Cada comunidade produziu um modelo distinto, conforme suas necessidades, combinando espécies frutíferas tradicionais nas aldeias, como açaí e pupunha, com cupuaçu, laranja e limão entre outras fruteiras ainda não cultivadas pelas famílias indígenas.

O uso de práticas simples e de fácil adoção, como o espaçamento adequado entre plantas, aliado ao conhecimento tradicional indígena, potencializou o desempenho produtivo das culturas agrícolas e das espécies frutíferas. “Aprendemos novas formas de plantio e isso melhorou a produção de alimentos. Antes a gente plantava e, às vezes, não conseguia colher. Com esse aprendizado nossa agricultura se fortaleceu”, afirma o líder indígena Ninawá Kaxinawá.

Os conhecimentos compartilhados também facilitaram a identificação de doenças como a sigatoka-negra em bananeiras, e de pragas comuns nos roçados. A adoção de medidas simples no manejo contribuiu para manter os plantios sadios. “A gente via os ‘ovinhos’ do percevejo nas folhas da mandioca e não retirava porque não sabia que esses insetos destroem a planta e influenciam a produção. Agora sabemos a gente cata todos os ovos”, comenta Issaká Kaxinawá.

Outro resultado foi a incorporação de variedades de mandioca, recomendadas pela Embrapa, aos roçados indígenas, ação que contribuiu para o aumento da produção. Paralelo a essa ação, a implantação de três casas de farinha, em parceria com o governo do Estado, por meio da Secretaria de Extensão Agroflorestal e Produção Familiar (Seaprof), possibilitou melhores condições de fabricação da farinha de mandioca nas aldeias. Essas estruturas, construídas em conjunto com os indígenas, em um modelo adaptado à realidade das comunidades, são utilizadas de modo compartilhado. Além de ser um alimento tradicional entre os Kaxinawá, a farinha também gera renda para as famílias, que comercializam parte da produção com o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), implementado pelo Ministério de Desenvolvimento Social e Combate á Fome (MDS).

Mapeamento espécies frutíferas em aldeias kaxinawá. - Foto: Priscila Viudes

Mapeamento espécies frutíferas em aldeias kaxinawá. – Foto: Priscila Viudes

Ganhos para a Ciência

Entre os benefícios para o campo científico destacam-se, principalmente, os conhecimentos sobre os solos da TI Kaxinawá de Nova Olinda. Juntos, indígenas e pesquisadores realizaram um mapeamento detalhado desse território, baseado em critérios científicos e no conhecimento tradicional desse povo, trabalho que revelou uma diversidade e características de solos até então desconhecidas. Uma das conclusões dos pesquisadores é que esses sistemas são equivalentes, em grande parte, ou seja, a classificação tradicional dos Kaxinawá (etnopedológica) se aproxima muito da classificação científica (pedológica), mesmo utilizando critérios diferentes.

Os resultados desse estudo estão sistematizados em uma publicação na língua Kaxinawá e em Português e têm contribuído para a escolha de locais mais apropriados para a implantação dos roçados nas aldeias, medida importante para o desenvolvimento da agricultura Kaxinawá.

“Além disso, esses conhecimentos têm orientado a implementação do Plano de Gestão Territorial e Ambiental da Terra Indígena, mecanismo que integra políticas públicas das esferas estadual e federal. Isto também representa um ganho para a Ciência porque comprova a efetividade e alcance social da pesquisa”, ressalta Haverroth.