Foto: Paula Monteiro/G1

Foto: Paula Monteiro/G1

Por Amelia Gonzalez/G1-Natureza

O vizinho me olhou quase com pânico. Quem tem cachorro e se preocupa em não deixar as fezes do animal nas calçadas por onde caminha, não pode se esquecer de sair de casa sem um estoque razoável, no mínimo dois saquinhos plásticos, no caso de um cão. E mais, no caso de mais cães. Eu, que tenho dois, costumo encher a bolsa de saquinhos. Até para poder ajudar quando acontece de alguém esquecer. Ou mesmo… bem, vá lá… vocês vão entender: de vez em quando sou aquela chata que corre atrás de quem não quer tomar esse cuidado e ofereço, gentilmente, o saco para que o excremento seja recolhido. Em geral dá resultado, a pessoa fica sem graça e aceita minha colaboração.

Portanto, explica-se o olhar de pânico do meu vizinho que havia se esquecido de botar um saquinho plástico no bolso antes de sair a passear com o amigo de quatro patas. Mas eu estava por perto e pude socorrê-lo. Aliviado, me disse:

— Poxa, parecia que eu estava nu!! Não sei como tem gente que não colhe o cocô do cachorro e sai sem dar a menor importância.

De volta à casa, essa última frase ficou ressoando. Na verdade, não sei também é como existem prefeitos que deixam algumas localidades das cidades que administram convivendo com muito mais do que um simples cocô de cachorro na rua. Como acontece anualmente, cem dos maiores municípios brasileiros foram estudados pelo Instituto Trata Brasil, especializado em questões de distribuição de água e saneamento básico. Dentre eles, mais da metade não têm esse serviço. Pessoas que convivem, em suas portas, com sujeira muito maior do que aquela que causou embaraço ao meu vizinho.

Segundo o estudo, que é feito com dados do Sistema Nacional de Informação sobre Saneamento (SNIS), a média brasileira de tratamento de esgoto é de 40,8%. Entre os dez piores municípios, seis coletam menos do que 10% do esgoto que produzem. No caso do tratamento, somente sete capitais têm índice de mais de 80%  e 16 capitais têm níveis de tratamento próximos ou inferiores a 50%. Porto Velho, capital da Rondônia, por exemplo, não tem nenhum esgoto tratado.

A cidade do Rio de Janeiro investiu mais (R$ 511 milhões) nesse serviço em 2014 do que em outros anos. Isso faz com que, para cada habitante, seja investido R$ 7,74, em média, anualmente. E atendeu, naquele ano, a 83,11% de suas localidades com a coleta de esgoto (não é o tratamento). Entre essas localidades, no entanto, não está o Morro da Mineira, que fica a cerca de 5 km da rua onde o meu vizinho, na manhã de hoje, quase deixou suja com as poucas fezes de seu animal.

No vídeo “O óbvio” , feito por Bruno Sicuro como parte do trabalho de conclusão do curso de residência em medicina social familiar da Uerj, que está circulando pela Internet desde o mês passado, há informações importantes sobre o link entre falta de coleta e tratamento de esgoto e a saúde pública. Ou seja, o link entre falta de saneamento e um descaso despropositado com a vida.

O trabalho de Sicuro foi feito no Morro da Mineira, que fica no bairro do Catumbi, onde moram mais de 5 mil pessoas. Assim como o 1,3 milhão de pessoas que vivem nas 772 outras favelas do Rio de Janeiro, ali os residentes  convivem com ratos, fezes de rato, fezes humanas e outras sujeiras na porta de suas casas.

“Entre todos os estados brasileiros, o que mais sofre com tuberculose é o Rio de Janeiro. Possui o maior coeficiente de mortalidade e maior relação de novos casos de tuberculose no Brasil”, diz Bruno Sicuro no vídeo que gravou para informar sobre a situação.

É nessa produção de Sicuro também que se fica sabendo que saneamento vem do latim sano, que é tornar saudável, limpar. E queem 3.750 a.C foi criada a primeira galeria de esgoto da história, construída para lançar os dejetos humanos em locais adequados. Isso porque, naquela época, descobriu-se a ligação direta entre tais dejetos e doenças na população. Como no século XIX, na Inglaterra, quando Koch descobriu a tuberculose. Depois de melhorarem as condições de moradia das pessoas, principalmente dos pobres que viviam sem saneamento básico, a taxa de mortalidade caiu sensivelmente.

É a esse “fenômeno”, descoberto antes de Jesus Cristo nascer, que Bruno Sicuro chama de “Óbvio”. E tem toda razão.

Perguntado sobre o motivo que leva os governantes municipais e estaduais a não fazerem obras de saneamento básico, a ponto de nos últimos seis anos ter sido registrado um aumento de apenas 3,6% nesse serviço, o presidente do Instituto Trata Brasil, Edson Carlos, fala sobre algo de que conhecemos bem. Os políticos não consideram que esta seja uma melhoria que garanta reeleição ou votos.

“Saneamento ficou desprezado por décadas no Brasil. As cidades que conseguiram investir estão na frente. Houve um descaso que dura até hoje. O prefeito acha que é um serviço emperrado, que traz pouca visão eleitoral. Mas precisamos mudar isso”, disse ele.

Ainda segundo o estudo, das capitais brasileiras, oito aumentaram seus níveis de coleta de esgoto e cinco apresentaram uma redução entre 2010 e 2014. Belo Horizonte tem 100% de coleta de esgoto em suas dimensões, assim como a cidade de Franca, em São Paulo.A primeira é uma cidade com mais de dois milhões de habitantes, enquanto em Franca convivem cerca de 350 mil pessoas.

Entre as piores no ranking de saneamento há três cidades do Rio de Janeiro: Duque de Caxias, São João de Meriti e Nova Iguaçu. Em Ananindeua e Santarém, ambas paraenses, não há uma única rua com esgoto tratado.

Volto a divulgar os dados que o médico Bruno Sicuro postou em vídeo. Ele conta que há distribuição de remédios para tuberculose nas comunidades pobres do Rio de Janeiro, como o Morro da Mineira, mas que tais medicamentos, embora importantes, sozinhos não conseguem conter o bacilo. É preciso limpar, sanear.

“Não é falta de ciência, de tecnologia, nem de inteligência humana. É falta de encarar o óbvio”, diz ele.

E, dentre as obviedades mais perturbadoras está o fato de que, segundo a Organização Mundial da Saúde, no mundo mais pessoas morrem de tuberculose – 1,5 milhão por ano – do que de Aids – 1,2 milhão por ano. Mas o investimento para conter a Aids é quatro vezes maior.

Dia desses fiz aqui uma resenha do livro “On Inequality”, de Harry Gordon Frankfurt em que ele traz uma nova visão, de que o maior problema não seria a desigualdade, mas sim o fato de haver no mundo tantos pobres. Quando se vê um cenário como este, em que fica claro aquilo que já sabemos, que os mais vulneráveis não têm garantido sequer uma vida decente, penso que o maior problema também é falta de dinheiro, sim. Mais vulneráveis, os pobres precisam cuidar de tanta coisa para poder viver que acabam se esquecendo de que, como cidadãos, têm direitos básicos, como o de não conviver com fezes na porta de casa. E que podem exercer esse direito exigindo dos governantes.

E, para encerrar, volto à imagem do meu vizinho, envergonhado com um pequeno pedaço de cocô de seu cachorro na calçada, e trago o pensamento de Boaventura Santos, que traduz “Temos o direito a ser iguais quando a diferença nos inferioriza. Temos o direito a ser diferentes quando a desigualdade nos descaracteriza”.

About The Author

Noticiar o pensamento ecológico! Trazendo até vocês notícias e ideias que fazem a diferença para o meio ambiente e para a humanidade.

Related Posts