CARTA CAPITAL/THIAGO FORESTI

Pecuaristas recebem instruções para introduzir a cultura do baixo carbono na Amazônia

Pecuaristas recebem instruções para introduzir a cultura do baixo carbono na Amazônia

O município de Alta Floresta, no Norte de Mato Grosso, é um símbolo do avanço da agropecuária no Portal da Amazônia. Desde quando foi criada, há 36 anos, a cidade já perdeu mais de 50% dos seus 9 mil km² de floresta nativa. Em 2008 figurou em primeiro lugar na lista suja do desmatamento e só conseguiu sair neste ano, após um longo esforço do poder público, ONGs e da população.
Os primeiros moradores de Alta Floresta, oriundos de projetos de ocupação patrocinados pela ditadura, tinham a missão de abrir áreas e ocupar o solo. Sem qualquer acompanhamento técnico ou planejamento, a atividade pecuária se desenvolveu através de uma série de práticas que se propagaram durante anos e resultaram, em 2010, em um desastre ambiental para a população: com mais de 4,5 mil km² de floresta no chão e quatro mil nascentes degradadas no município, os moradores tiveram de conviver com a falta de água durante um longo período de estiagem.

O retrato era trágico: gado com acesso direto aos cursos d’água e nascentes; falta de rotação do pasto; descuido com os dejetos; desmate de APP e reservas legais. “O que existe aqui é muito da cultura do vizinho. Se meu vizinho está fazendo, então eu vou fazer também”, diz Vando Telles, do Instituto Centro de Vida (ICV). Telles é coordenador de um projeto patrocinado pelo Fundo Vale que visa disseminar a cultura do BPA – Manual de Boas Práticas Agropecuárias da Embrapa. “A ideia é levar informação para os pecuaristas e mostrar que é possível trabalhar com uma pecuária de baixo carbono na Amazônia”, diz.

A pecuária é uma atividade de grande emissão, principalmente por conta das grandes áreas necessárias para o plantio de pasto. Milhares de hectares de florestas são postos abaixo na Amazônia para a criação de poucas cabeças de gado. Também entra na conta as emissões do próprio rebanho que emite gás metano através do arroto.

Segundo alguns cientistas, o metano é um gás capaz de reter 20 vezes mais calor que o gás carbônico. Como se já não bastasse o impacto natural da atividade, as práticas atuais dos produtores na região intensificam ainda mais o processo de emissão, pois esgotam o solo, não cuidam dos cursos d’água e não se preocupam manter árvores em pé. “No projetos vamos mostrar que o produtor pode cultivar algumas espécies de árvores comerciais no próprio pasto para ajudar no sequestro de carbono, fazer sombra aos bois e ainda gerar renda”, diz Telles.

Além de formação e consultoria, o projeto pretende medir o impacto da pecuária integrada através de um estudo de sequestro de carbono. “Acreditamos que, ao implementar os princípios do BPA, a gente consiga mostrar que é possível equalizar as emissões dessa atividade e, quem sabe, até enquadrar projetos da pecuária dentro dos MDL [Mecanismos de Desenvolvimento Limpo]”, acredita Telles.

São 11 pontos principais do manual de BPA da Embrapa que serão explorados no projeto: gestão da propriedade rural; função social do imóvel rural; responsabilidade social; gestão ambiental; instalações rurais; manejo pré-abate e bons tratos na produção animal; formação e manejo de pastagens; suplementação alimentar; identificação animal; controle sanitário e manejo produtivo. Com a adoção desses princípios os pecuaristas ganham uma produção mais rentável e competitiva e asseguram a oferta de alimentos seguros, oriundos de sistemas de produção sustentáveis. “Queremos mostrar que eles precisam ter o controle da produção. Ao contrário dos produtores de grãos que controlam todas as variáveis, os pecuaristas trabalham com estimativa. Estimam o quanto tem de pasto, de bois, de área. Nossa consultoria vai ensinar a colocar tudo em tabelas e calcular, inclusive, a variável ambiental”, diz Telles.

A pesquisa terá como laboratório a região do Portal da Amazônia. A simples disseminação dessas boas práticas tem dado resultados. Vilson Wittemann é pecuarista e trabalha com produção de leite há 18 anos em Alta Floresta. Ele é um dos beneficiados pelo projeto e já recebe consultoria técnica e financeira. “Conseguimos dobrar a nossa produção após a visita de um consultor que disse que a gente podia tirar leite também à tarde, não só de manhã”, diz o pecuarista.

São práticas simples, que visam melhorar a vida do produtor e incentivar cuidados com o meio ambiente. A perspectiva de aumento de renda e redução de custos é o que mais chama a atenção nos produtores. “A gente fazia as coisas sem saber. Agora, com essa consultoria, a gente tem uma visão mais completa do pasto. Um dos problemas que tinha aqui é a morte súbita, mas agora a gente entende a importância do manejo de pastagem, por exemplo, pra evitar que isso ocorra”, diz Wittemann. A morte súbita é o esgotamento do solo por conta do mau uso. É uma praga fulminante, acredita-se ser transmitida pela pata dos bois e que inviabiliza qualquer produção agrícola ou reflorestamento no solo. Segundo o Instituto Mato-grossense de Agropecuária (Imea), a Morte Súbita de pastagem atinge cerca de 2,3 milhões de hectares no estado. É o estagio mais grave de degradação e um grande drama nessa região do portal da Amazônia.

Avanço da Fronteira Agrícola. A pecuária é uma atividade com impacto ambiental menor do que a agricultura extensiva, principalmente por não usar agrotóxicos e fertilizantes nitrogenados, que emitem alta quantidade de CO2 e contaminam o lençol freático. “Se conseguirmos manter uma pecuária integrada e sustentável no portal da Amazônia vamos contribuir para frear o avanço da agricultura mecanizada nas áreas já abertas. A ideia é fazer de Alta Floresta um modelo de desenvolvimento sustentável no Portal da Amazônia e frear a expansão da fronteira agrícola”, diz.

About The Author

Thiago Itacaramby é jornalista diplomado e especialista em Marketing. Possui experiências profissionais nos setores público e privado. Atua em órgãos não governamentais ligados ao meio ambiente e possui conhecimentos na elaboração de projetos. Estudante de Gestão Ambiental no Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT).

Related Posts