Raio cai no lago Catatumbo, na Venezula no dia 28 de janeiro de 2014 (Foto: Xinhua/Alamy)

Raio cai no lago Catatumbo, na Venezula no dia 28 de janeiro de 2014 (Foto: Xinhua/Alamy)

Você certamente já ouviu o ditado “um raio nunca cai duas vezes no mesmo lugar”. Mas, o lago Maracaibo, na Venezuela, é a prova de que isso não é verdade. Em uma noite tranquila, o local chega a ser atingido por milhares de relâmpagos por hora.

Por Ella Davies/BBC Earth

O fenômeno é conhecido por vários nomes, entre eles, Farol de Maracaibo, Relâmpago do Catatumbo e, mais sugestivamente, Tempestade Eterna. Talvez este último seja um exagero, mas é fato que há uma média de 260 dias de tempestade por ano no local onde o rio Catatumbo encontra o Lago Maracaibo.

Ali, o céu noturno é iluminado por nove horas por milhares de clarões de eletricidade produzida naturalmente.
Tempestades de verão são comuns em vários lugares do mundo, mas ao longo da Linha do Equador, onde as temperaturas são mais altas, o céu produz estrondos durante todo o ano.

Até agora, acreditava-se que a República Democrática do Congo, na África Central, fosse a capital mundial das tempestades. É lá que fica o vilarejo montanhoso de Kifuka, atingido, anualmente, por uma média de 158 relâmpagos por quilômetro quadrado. Mas, novas pesquisas tiraram o título do local.

Em 2014, um estudo da Nasa afirmou que o Vale de Brahmaputra, no extremo leste da Índia, tinha a maior taxa de relâmpagos mensais entre abril e maio, quando as monções geram intensa atividade elétrica.

A calma antes da tempestade no rio Brahmaputra, Índia (Foto: Bernard Castelein/NPL)

A calma antes da tempestade no rio Brahmaputra, Índia (Foto: Bernard Castelein/NPL)

Mas o lago Maracaibo acabou ganhando lugar no Livro Guinness dos Recordes pela “mais alta concentração de relâmpagos do mundo”, com 250 deles por quilômetro quadrado, todo ano.

O número de tempestades diminui nos meses de janeiro e fevereiro, mais secos, e atinge seu ponto mais espetacular no ápice da estação chuvosa, em outubro. Nessa época do ano, é possível avistar, em média, de 28 relâmpagos por minuto.

Combinação explosiva

Há várias décadas, especialistas tentam entender os motivos da intensa atividade de tempestades na região. Nos anos 60, pensava-se que depósitos de urânio na base rochosa do local atrairiam mais raios. Mais recentemente, alguns cientistas sugeriram que a condutividade do ar sobre a superfície do lago é aumentada pela abundância do metano liberado pelas reservas de petróleo do subsolo.

Mas nenhuma dessas teorias foi comprovada. Por enquanto, o fenômeno é atribuído à potente combinação de topografia e correntes de ar que circulam na área.

Uma costa curvada pode estimular os raios (Foto: Ben/CC by 2.0)

Uma costa curvada pode estimular os raios (Foto: Ben/CC by 2.0)

“Muitos desses lugares cheios de relâmpagos apresentam características comuns em seu terreno: cadeias de montanhas acentuadas, uma costa muito entrecortada ou uma combinação dos dois”, explicou Daniel Cecil, da equipe de estudos de raios do Centro Global de Hidrologia e Clima da Nasa.

“Características como estas ajudam a criar um regime de ventos e padrões de aquecimento e resfriamento que podem aumentar a probabilidade de tempestades.”

Localizado no noroeste da Venezuela, o maior lago da América do Sul passa pela cidade de Maracaibo para se juntar ao Mar do Caribe. Ele fica em uma bifurcação dos Andes e, por isso, é rodeado por altas cadeias de montanhas em seus outros três lados.

De dia, o forte sol tropical evapora a água do lago e dos pântanos que o cercam. Conforme a noite chega, ventos vindos do mar empurram o ar quente contra o ar frio que desce das montanhas. O ar quente sobe e nuvens cúmulo-nimbo se formam como torres que alcançam 12 quilômetros de altura.

De longe, essas nuvens tão peculiares parecem calmas, mas dentro delas é travada uma batalha: as gotas de água vindas do ar quente e úmido se chocam com os cristais de gelo do ar frio, produzindo descargas estáticas e dando início a uma tempestade elétrica.

O mapa da Nasa mostra a média de ocorrências de raios por ano por quilômetro quadrao etre 1995 e 2013 (Foto: NASA)

O mapa da Nasa mostra a média de ocorrências de raios por ano por quilômetro quadrao etre 1995 e 2013 (Foto: NASA)

A eletricidade estática é descarregada em raios que atingem o solo, passando pelas nuvens ou eclodindo dentro delas. Os trovões são ondas de som criadas quando o calor do raio – que pode ser três vezes mais quente do que a superfície do Sol – repentinamente comprime o ar à sua volta.

Além do espetáculo de luz e som, há os efeitos especiais da chuva e do granizo.

Satélites e sondas

Tucson, no Arizona é um lugar com alta ocorrência de raios (Foto: Robert Harding World Imagery/Alamy)

Tucson, no Arizona é um lugar com alta ocorrência de raios (Foto: Robert Harding World Imagery/Alamy)

O Relâmpago do Catatumbo é tão resplandecente que pode ser visto a uma distância de até 400 quilômetros. No período colonial, navegadores espanhóis o utilizavam para se guiar. A força e a duração dessas tempestades podem ter inspirado muitos “causos”, mas os relatos de testemunhas de que os raios têm várias cores é um truque da luz.

Quando a luz branca atravessa a poeira ou a umidade, parte dela é absorvida ou refratada, fazendo-a aparecer em cores diferentes.

Quem já assistiu ao espetáculo também garante que ele é muitas vezes silencioso, mas isso também tem a ver com a perspectiva do espectador: como a velocidade do som é bem menor que a da luz, muitos trovões são inaudíveis à distância.

Um raio observado da Estação Espacial Internacional (Foto: NASA)

Um raio observado da Estação Espacial Internacional (Foto: NASA)

Para registrar todas essas informações sobre raios, os cientistas da Nasa utilizaram por 17 anos os instrumentos a bordo de um satélite que orbita a Terra a 402,5 quilômetros de altitude, como parte da Missão de Medição da Pluviosidade Tropical (TRMM, na sigla em inglês), um projeto conjunto com a Agência de Exploração Aeroespacial do Japão.

Com base nesses dados, os especialistas produziram um mapa dos lugares mais atingidos por raios no mundo. O satélite agora está esgotando seu combustível e voltando à Terra, mas os cientistas estão otimistas quanto ao futuro da missão.

“Temos planos de instalar instrumentos de mapeamento de raios em alguns satélites geoestacionários localizados acima de diferentes partes do globo”, explica Cecil.

“Isso vai nos fornecer medições contínuas da atividade elétrica, em vez dos breves retratos que eram obtidos por satélites que ficavam em uma órbita mais baixa.”

A capacidade de prever tempestades tem se tornado cada vez mais importante à medida que a população mundial cresce – principalmente em países em desenvolvimento, onde as pessoas tendem a trabalhar mais ao ar livre e não têm proteção suficiente contra raios.

Para nos ajudar a entender melhor esse fenômeno, as tempestades também são analisadas por baixo.

Raio registrado por leitor da BBC (Foto: James Hendrick Photography)

Raio registrado por leitor da BBC (Foto: James Hendrick Photography)

A World Wide Lightning Location Network (“Rede Mundial de Localização de Raios”, em tradução literal) utiliza sensores instalados em 70 universidades e centros de pesquisa, e que captam os sinais de altíssima frequência emitidos pelos raios.

Robert H. Holzworth, que comanda a operação a partir da Universidade de Washington, afirma que as observações em solo complementam os dados obtidos pelos satélites.

“Nosso sistema em solo é capaz de ver o mundo inteiro instantaneamente e continuamente, o que nenhum satélite pode fazer. Por outro lado, os sensores só captam as descargas de energia mais intensas, sem registrar tempestades menores”, diz.

Para aqueles que se interessam em descobrir mais sobre as tempestades, mas não está disposto a abrir mão do conforto de um teto, o projeto de sondas produz um mapa em tempo real de todos os raios atingindo o planeta.
Para os mais corajosos, há vários tours organizados no Lago Maracaibo.

Leitor da BBC capturou este belo raio no Monument Valley, EUA (Foto: Rob Hill)

Leitor da BBC capturou este belo raio no Monument Valley, EUA (Foto: Rob Hill)