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Que a energia solar viesse a ameaçar o status das companhias de geração e distribuição de eletricidade – há mais de século sentadas impávidas sobre um modelo de negócios baseado no aumento da demanda por energia –, foi o sonho dourado de ambientalistas por muito tempo. Agora, ao que parece, é o pesadelo das próprias empresas, pelo menos em países como a Alemanha, os Estados Unidos e a Austrália.

O Edison Electric Institute (EEI) – associação que representa cerca de 70% do setor elétrico americano – tornou público em janeiro passado um relatório que mapeia, passo a passo, a ameaça vinda da geração distribuída, em particular de energia solar.

O relatório cita as razões pelas quais a energia solar é tão desestabilizadora para o setor: queda nos preços dos painéis fotovoltaicos, aumento das tarifas de energia convencionais, incentivos a energias renováveis, políticas públicas que garantem preços vantajosos para que quem produz venda o excesso de energia à rede, crescente diversidade de fontes de capital para empresas do setor solar.

Segundo o comentarista David Roberts, do site Grist, ler o relatório do EEI é como “ouvir uma indústria contar a história de sua própria incipiente obsolescência”.

Roberts troca em miúdos o que a ameaça da energia solar significa para o setor elétrico. A energia gerada por painéis solares em telhados residenciais ou comerciais não é propriedade de nenhuma companhia e, portanto, não precisa ser comprada de nenhuma companhia. “Do ponto de vista das companhias elétricas, cada quilowatt-hora de energia gerada nos telhados se parece com um quilowatt-hora a menos de demanda por seu produto”.

O detalhe é que a produção de energia solar tem seu auge ao meio-dia, ou seja, momento de maior uso de eletricidade, conhecido como pico de demanda, responsável por boa parte das receitas das companhias elétricas. “Energia no pico da demanda é a energia mais cara”, escreve Roberts. “Quando os painéis solares geram energia no pico da demanda, eles não só reduzem a demanda, mas reduzem a demanda pelo produto mais valioso das companhias elétricas”.

Some-se a isso o rápido avanço da tecnologia para desenvolver baterias que permitam o uso da energia solar não só quando o sol brilha e o setor elétrico está diante de um desafio tão grande quanto, nas telecomunicações, a transição de linhas fixas para celulares.

“Os consumidores estão percebendo que não precisam da indústria elétrica para nada”, disse David Crane, presidente da NRG, a maior geradora de energia dos EUA, que recentemente passou a oferecer a instalação de painéis solares diretamente a clientes residenciais e comerciais, cortando a intermediação das distribuidoras. Segundo ele, as empresas do setor elétrico americano reconhecem que a energia “solar distribuída é uma ameaça mortal para seu negócio”.

Quanto mais residências e empresas optarem pela energia solar, mais as companhias elétricas convencionais terão de extrair receita dos clientes que lhes restam. “Isso poderia iniciar uma espiral da morte”, escreveu Giles Parkinson, editor do site Renew Economy. Ao tentar tornar a energia solar pouco atrativa com a elevação de tarifas fixas e barreiras regulatórias, as empresas só aumentam o apelo dessa energia para os consumidores. “Quanto mais as elétricas sentem que estão competindo contra seus consumidores, mais rápido vão afastá-los”.

A recomendação de curto prazo do relatório encomendado pelo EEI é que as elétricas cobrem mais dos consumidores que possuem painéis solares – repassando custos fixos e cobrando por serviços fora da hora de pico, de backup ou pela possibilidade de vender energia à rede. Outra sugestão é que o setor tente influenciar uma revisão dos subsídios dados à energia solar.

No longo prazo, entretanto, parece que só a inovação salvará.

About The Author

Thiago Itacaramby é jornalista diplomado e especialista em Marketing. Possui experiências profissionais nos setores público e privado. Atua em órgãos não governamentais ligados ao meio ambiente e possui conhecimentos na elaboração de projetos. Estudante de Gestão Ambiental no Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT).