Fazenda eólica

Fazenda eólica

Queda de 14% no terceiro trimestre indica que é praticamente certo que ano ficará abaixo dos US$ 281 bilhões investidos em 2012, afirma Bloomberg New Energy Finance

Por Fabiano Ávila/Instituto CarbonoBrasil

Diminuição da vontade política, expansão do uso do gás natural e incertezas sobre o futuro de subsídios são fatores que ajudam a explicar porque os investimentos em energias limpas e em tecnologias de baixo carbono – como redes inteligentes (smart grids) e veículos elétricos – devem cair pelo segundo ano consecutivo.

De acordo com a Bloomberg New Energy Finance (BNEF), no terceiro trimestre foram investidos US$ 45,9 bilhões no setor, 14% a menos do que no segundo trimestre e 20% a menos do que no mesmo período de 2012.

Assim, dificilmente 2013 ultrapassará a marca dos US$ 281 bilhões registrados no ano passado, que já era 11% a menos do que o valor de 2011. “Depois de números relativamente promissores no segundo trimestre, nós agora vemos um quadro muito desapontador. Apesar de US$ 45,9 bilhões ainda ser uma quantia substancial, muito maior do que foi investido em todo o ano de 2004, a queda com relação a 2011 é preocupante”, declarou Michael Liebreich, presidente da BNEF.

“Essa redução reflete as incertezas políticas na Europa, a atenção dada ao gás nos Estados Unidos, uma estagnação dos investimentos em energia solar e eólica na China e um enfraquecimento da vontade política nas grandes economias. Governos aceitam que o mundo enfrenta um grande problema com as mudanças climáticas, mas, pelo menos por enquanto, estão muito preocupados com assuntos domésticos de curto prazo para tomarem as ações necessárias”, completou.

Os investimentos caíram na maioria das principais economias. Nos Estados Unidos o aporte de recursos passou de US$ 9,4 bilhões no segundo trimestre para US$ 5,5 bilhões no terceiro. Na China foram US$ 13 bilhões contra US$ 13,8 bilhões. O Brasil registrou um leve aumento, passando de US$ 950 milhões no segundo trimestre para US$ 1,1 bilhão no terceiro.

Investimentos de capital de risco e de private equity (investimentos em empresas que não estão listadas em bolsas) estão em baixa. Juntos somaram apenas US$ 724 milhões, contra US$ 1,3 bilhões no segundo trimestre. Segundo a BNEF trata-se do menor valor desde 2005.

Já os investimentos em projetos de energia renovável de grande escala (acima de 1MW) foram de US$ 26,4 bilhões, bem abaixo dos US$ 34,8 bilhões registrados no mesmo período de 2012. Mesmo assim, algumas negociações merecem destaque: os US$ 406,4 milhões captados pelo projeto fotovoltaico GL Nyngan & Broken Hill na Australia, com 182MW, e os US$ 314 milhões para a usina heliotérmica de Shenzhen Jinfan Energy Technology Akesai Aletangxiang, na China, com capacidade instalada de 50 MW.

Em compensação, os projetos de pequena escala – em sua maioria instalações fotovoltaicas em residências e empresas – estão muito mais resilientes. A queda nos investimentos foi menor do que em outras áreas, passando de US$ 20,1 bilhões no terceiro trimestre de 2012 para US$ 17 bilhões neste ano. A BNEF ressalta que a diminuição se deve mais ao barateamento dos equipamentos fotovoltaicos do que propriamente a uma redução do interesse por essas instalações.

O mundo de olho na Alemanha

De acordo com a BNEF, os investimentos na Alemanha caíram para US$ 1,6 bilhão no terceiro trimestre, valor muito abaixo do que vinha sendo registrado nos últimos anos.

Analistas acreditam que o futuro dos investimentos em energia renovável e a forma como serão feitos em todo o mundo dependem dos próximos acontecimentos na Alemanha, país que está passando por uma revolução energética e enfrentando os desafios que isso acarreta.

A política energética alemã, batizada de “energiewende”, ou “virada energética”, prioriza as fontes alternativas e a microgeração distribuída, assim como promete acabar com o uso de energia nuclear.

Segundo pesquisas de opinião, até 80% da população é a favor da política, mas já se percebe certa insatisfação devido ao aumento demasiado no custo da enegia. Para se ter ideia, a conta para uma residência de quatro pessoas subiu mais de 47% nos últimos doze meses.

A indústria intensa em energia é quem mais reclama no momento, com sindicatos afirmando que o setor, que emprega mais de 900 mil pessoas, pode ter que deixar o país.

Pelo lado positivo, a política já resultou na instalação de cerca de 1,3 milhão de unidades solares fotovoltaicas em residências e pequenas empresas, assim como 23 mil usinas eólicas em cooperativas de pequenos proprietários de terras.

“O dilema da Alemanha é como estabelecer preços de energia da indústria baixos o suficiente para que continue competitiva e atinja as ambiciosas metas [verdes], mantendo ao mesmo tempo um orçamento equilibrado”, colocou Will Pearson, diretor de energia do Grupo Eurasia em Londres. “Enfrentar isso representará um desafio político.”

As metas alemãs são de ter em sua matriz 35% de fontes alternativas até 2020 e 80% até 2050.

Se conseguir ultrapassar todos os obstáculos, a Alemanha deverá ter aberto um caminho que as outras grandes economias poderão seguir.