Foto: Paulo de Araújo

Foto: Paulo de Araújo

Ibama procura recrutar pessoal das próprias comunidades, por conhecer melhor a região.

Por Marta Moraes/MMA

Nos últimos dias, informações sobre incêndios tiveram destaque nos principais veículos de comunicação. No dia 24 de julho, por exemplo, pelo menos 1.106 hectares de vegetação foram destruídos por um incêndio no Parque Estadual dos Pireneus, em Pirenópolis (Goiás). Dias antes (21 de julho), um incêndio no Parque Burle Marx, no centro de Brasília, atingiu 335 mil metros quadrados.

No dia 14 de julho, brigada do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo), do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) esteve no Parque Nacional de Brasília fazendo aceiros (faixas ao longo da área queimada, com a finalidade de prevenir a passagem do fogo para fora da área delimitada), chamando a atenção de quem passava pela rodovia próxima.

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PERÍODO CRÍTICO

O chefe do Prevfogo, Rodrigo Falleiro, explica que o período crítico de ocorrência de incêndios florestais no Centro Oeste começa normalmente em julho, fica mais grave em agosto e setembro, e vai até outubro.

“É como se os incêndios nascessem no centro do Brasil e fossem se expandindo em direção à Amazônia, ao Pantanal, Sudeste, até que, no final do ano, a temporada de incêndios chegue a Roraima e no Nordeste”, explica.

Para combater incêndios em épocas tão distintas, o Prevfogo possui, esse ano, 74 brigadas somando 1.413 integrantes. Essa força de trabalho é contratada apenas durante a temporada de incêndios florestais, que varia a depender da região do Brasil e têm algumas peculiaridades.

Existem, por exemplo, grupos criados nas terras indígenas, com 608 brigadistas, formados por integrantes da própria comunidade, que são selecionados, recebem capacitação, salário, assistência técnica, equipamentos e veículo para realizar as atividades de prevenção e de combate.

Como programa de governo, as brigadas indígenas começaram em 2013 e apresentam excelente resultado. São responsáveis hoje pelo combate de uma área de 17.140.265 hectares – Tocantins, Pará, Mato Grosso, Maranhão, Mato Grosso do Sul e Roraima.

REPERCUSSÃO POSITIVA

O fato de serem integradas por pessoas da comunidade, que conhecem a região, gera maior conscientização dos demais habitantes. “Nota-se uma mudança de postura da comunidade depois do programa de brigadas”, diz Falleiro.

“O programa tem uma repercussão positiva, que vai além do fogo, repercutindo na questão social, na economia, na preservação ambiental e na própria gestão territorial”.

Outra brigada bem específica é a Kalunga, localizada no quilombo de mesmo nome, em Goiás, identificado como área de grande importância ambiental, com 265 mil hectares de Cerrado preservados. Segundo o chefe do Prevfogo, o grupamento também vem apresentando resultados excepcionais.

AÇÕES NO CERRADO

Para lugares diferentes, ações específicas. No Cerrado, por exemplo, o Prevfogo vem avançando numa técnica conhecida como manejo do fogo.

“Por muito tempo o fogo foi considerado um elemento puramente negativo e predador”, acrescenta Falleiros.

Com o tempo e os exemplos práticos de outros países, aprendidos a partir de um projeto, fruto de uma cooperação técnica entre Brasil e Alemanha, tais ocorrências acabaram permitindo uma grande reflexão sobre o combate a incêndios nas áreas de savana.

O projeto “Prevenção, Controle e Monitoramento de Queimadas Irregulares e Incêndios Florestais no Cerrado”, também conhecido como Cerrado-Jalapão, prevê um conjunto de atividades visando melhorar a prevenção e controle de incêndios e queimadas no bioma Cerrado e, em particular, na região do Jalapão (Tocantins), contribuindo, assim, para a manutenção das funções do Cerrado como sumidouro de carbono de relevância global.

As ações do projeto demonstraram que o uso do fogo no Cerrado por meio de queimadas prescritas, aplicadas com critério, não só ajuda no combate aos incêndios como auxilia na preservação da própria biodiversidade do Cerrado e numa menor emissão de gases.

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PREVENÇÃO

Em todas as ações realizadas no Brasil, Rodrigo Faleiros destaca que existe um trabalho de cooperação muito próximo com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

“Trabalhando juntos, temos possibilidade de uma rápida mobilização, não só no combate, como também na prevenção”, destaca.

Para a prevenção, a educação ambiental é fundamental. Praticamente todos os incêndios ambientais são provocados pelo ser humano: em parte acidental, em parte por ignorância e parte por crime.

“Poderíamos trabalhar essa parte do que é ignorância e do que é acidental, e resolveríamos 80% dos incêndios”, destaca o chefe do Prevfogo. “Temos um trabalho de educação ambiental para o fogo nas comunidades, pois não adianta colocar uma brigada indígena numa comunidade se não procuramos conscientizar a população.”

Por este motivo, os brigadistas são treinados para atuar, também, como multiplicadores, e há um trabalho com professores, na formação das crianças, além de campanhas pontuais de mídia. Atualmente, o maior problema é a baixa responsabilização dos que provocam deliberadamente os incêndios florestais.

“Há uma dificuldade em provar o dolo ou a culpa”, lamenta Falleiros.