Resultados de pesquisas realizadas na Amazônia apontam limitações na eficácia de diretrizes de gestão de ecossistemas e de certificados internacionais (Foto:Manilkara bidentata/Wikimedia Commons)

Resultados de pesquisas realizadas na Amazônia apontam limitações na eficácia de diretrizes de gestão de ecossistemas e de certificados internacionais (Foto:Manilkara bidentata/Wikimedia Commons)

Por Peter Moon/Agência FAPESP

O Manejo Florestal Sustentável é um dos pontos basilares da Lei de Gestão de Florestas Públicas, aprovada pelo Congresso Nacional em 2006 como resposta ao desmatamento crescente que ocorria à época no Cerrado e, principalmente, na Amazônia.

A nova legislação contribuiu decisivamente para a redução do desmatamento na Amazônia Legal, que caiu dos 27.700 km2 de floresta derrubada em 2004 para a mínima histórica de 5.000 km2 em 2014, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) – embora, em 2015, o desmatamento tenha voltado a subir, atingindo 5.800 km2.

O Ministério do Meio Ambiente define o Manejo Florestal Sustentável como “a administração da floresta para obtenção de benefícios econômicos, sociais e ambientais, respeitando-se os mecanismos de sustentação do ecossistema objeto do manejo”.

A estratégia prevê a retirada seletiva de espécies de valor comercial em quantidade limitada, preservando as árvores jovens, por exemplo. Também é obrigatória a retirada prévia das lianas, os cipós e a vegetação aérea que crescem entre as árvores, evitando assim que a derrubada de um indivíduo arraste outras árvores consigo.

Estas e outras medidas buscam reduzir ao máximo o impacto da atividade madeireira nas florestas nacionais. Assim mesmo, o impacto existe. Como fazer para quantificá-lo e qualificá-lo? Esta foi a tarefa de um grupo de ecologistas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Os primeiros resultados foram publicados noForest Ecology and Management. O estudo tem apoio da FAPESP.

“Queríamos entender como o manejo sustentável agia sobre espécies arbóreas de uso comercial e também aquelas não madeireiras”, disse Flavio Antonio Maës dos Santos, do Departamento de Biologia Vegetal da Unicamp. O estudo foi levado a cabo por sua então doutoranda, Maria Rosa Darrigo.

Para entender a ação do manejo florestal no médio e no longo prazo, os pesquisadores selecionaram glebas de floresta em Itacoatiara, no Amazonas, a 250 km de Manaus. A área, uma reserva florestal com 506 mil hectares, é explorada por empresa desde 1995 de acordo com diretrizes da Forest Stewardship Council (FSC), organização não governamental que estabelece padrões internacionais de manejo florestal sustentável.

As glebas florestais estudadas foram exploradas em 1996, 2002 e 2005. Os dados dos efeitos do manejo sobre as espécies vegetais e o solo foram coletados entre 2007 e 2009, fornecendo um painel de regeneração florestal efetiva de dois, cinco e 11 anos desde o manejo. Todos os dados foram comparados aos de uma área de controle não explorada.

Foram estudadas sete espécies arbóreas. Elas são comuns em todas as áreas estudadas: acariquara (Minquartia guianensis), cupiúba (Goupia glabra), maparajuba (Manilkara bidentata), maçaranduba (Manilkara huberi), Pouteria anomala, Protium hebetatume angelim-rajado (Zygia racemosa). Essas espécies representam um amplo conjunto de características, incluindo tamanho, densidade da madeira e estratégias reprodutivas.

“A partir de todos esses dados conseguimos comparar o que estava acontecendo com os indivíduos daquelas sete espécies nas áreas investigadas”, disse Santos. Um exemplo é a abertura de clareiras na mata. Mesmo depois de 11 anos, não se observou uma recuperação total da cobertura vegetal nas áreas onde a derrubada manejada de árvores abriu clareiras.

Daí decorre uma segunda evidência: a quantidade de luz que incide sobre a vegetação na clareira. As plantas pequenas mostraram uma taxa de crescimento maior do que as demais, pois o acesso à luz é um fator determinante de crescimento.

Por outro lado, se a taxa de crescimento das plantas pequenas aumentou, sua mortalidade seguiu o mesmo rumo. E de forma acelerada. “A taxa de mortalidade das plantas pequenas subiu de duas a três vezes, quando comparada às mesmas plantas na área de controle”, disse Santos. A resposta a essa disparidade pode estar nas alterações sofridas no ambiente após o manejo, com a mudança na frequência de indivíduos de determinadas espécies em relação às outras.

Uma outra causa de mortalidade observada foi a queda de árvores. Segundo Santos, “nas áreas manejadas quem cresce mais são as espécies com densidade de madeira menor, portanto mais sujeitas à queda. Em princípio, o que pareceria benéfico às plantas menores, o aumento do acesso à luz, na verdade não ocorre”.

Composição do solo

Outra constatação dos pesquisadores foi a alteração na composição do solo nas áreas manejadas em comparação com a área de controle. Nos primeiros dois anos após o manejo, a fertilidade do solo se manteve comparável à da área de controle. Depois desse período, a fertilidade caiu cerca de 30%. Boa parte da manutenção da fertilidade nas áreas de manejo se deve à decomposição das árvores derrubadas para a abertura de trilhas por onde são transportadas as toras comercializáveis, por exemplo. Após dois anos do manejo, quando a decomposição dessa mata derrubada se completa, a fertilidade das áreas manejadas declina.

Uma das conclusões do trabalho é que os efeitos do manejo florestal sustentável não são iguais para todas as espécies. Algumas são mais afetadas do que as outras. Algumas crescem mais do que as outras. Essa constatação por si só é extremamente importante para entendermos as limitações da eficácia das diretrizes e dos certificados internacionais de manejo florestal.

“Se essas estratégias fossem de fato sustentáveis, seria de se esperar a manutenção das populações de todas as espécies ao longo do tempo. Mas não é isso o que acontece”, disse Santos. “O que constatamos foi que, tanto na área manejada há 11 anos, quanto na área manejada há cinco anos, ocorreu uma redução das populações no tempo.”

Uma possível resposta é a retirada das árvores adultas, que são justamente as fontes de sementes para a germinação de novas gerações de árvores. “Manejo sustentável é, sem dúvida, muito melhor do que a terra arrasada pelo desmatamento generalizado”, afirmou Santos. “Só que dizer que isso é sustentável, não dá para afirmar.”

Maria Rosa Darrigo é mais específica. “A exploração manejada, no caso deste estudo, realmente causou mudanças na trajetória de recomposição da floresta, que não são consideradas nos planos de manejo florestal sustentável. O que temos, de fato, é uma exploração de baixo impacto. Da forma que estamos fazendo, ainda não podemos chamá-la de sustentável, mas isso não quer dizer que não houve avanços na forma de se explorar as espécies madeireiras, uma vez que o impacto é comparativamente menor do que o causado pelos métodos tradicionais. O que precisamos entender e aceitar é que a floresta tem o seu próprio tempo de desenvolvimento, e o mercado precisa se adaptar a esse tempo natural.”

O artigo Effects of reduced impact logging on the forest regeneration in the central Amazonia (doi: 10.1016/j.foreco.2015.10.012), publicado por Santos, Darrigo e Eduardo Martins Venticinque em Forest Ecology and Management, pode ser lido emwww.sciencedirect.com/science/article/pii/S0378112715005678.